Uma simples dor nas costas pode esconder problema mais grave

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1. Geração preguiça
Nas últimas décadas diminuímos os movimentos diários que fortalecem e alongam a musculatura e, quando nos movimentamos, em geral é de maneira errada. Entre os fatores responsáveis por isso estão o sedentarismo, a obesidade e a má postura – reforçada pelo hábito de manter os olhos cravados no smartphone, forçando o pescoço para baixo, e o laptop no colo. Contribuem também os móveis e equipamentos de trabalho, que deixam a desejar em ergonomia, e o stress, que tensiona a musculatura até travar tudo.
O tabagismo também prejudica as costas. Os cientistas afirmam que as substâncias tóxicas associadas ao cigarro atrapalham a irrigação dos músculos e os enfraquecem, o que pode resultar em dor.


2. Perigosas combinações
No caso específico das mulheres, se associam aos maus hábitos contemporâneos algumas características próprias. A lordose, por exemplo, acentuação da curvatura natural no final da coluna, é típica da anatomia feminina.  A curvatura excessiva, juntamente com a postura incorreta, leva à lombalgia.
A dupla salto alto e bolsa pesada é o pesadelo dos especialistas em coluna que tratam o público feminino. O salto provoca o encurtamento dos músculos da parte de trás das pernas e pressão na lombar. Já a bolsa pode comprimir vértebras e desviar a espinha. As mulheres também são mais suscetíveis ao ganho de peso e à osteoporose, o que afeta diretamente a coluna. Mas, apesar de a perda de gordura e o fortalecimento dos ossos serem essenciais para elas, é preciso cuidado com atividades de impacto.
Um estudo do Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, com 240 praticantes de corrida, revelou que as dores nas costas afetam mais as mulheres, atingindo 49,5% delas ante 39,3% dos homens. Entre todos os participantes da análise, 70% conviviam com dores lombares e 30% com dores cervicais, provando que esportes de impacto podem agravar problemas na coluna. O estudo destacou ainda que, em geral, mulheres acima do peso têm um risco 50% maior em relação aos homens de desenvolver dores na região.
Elas devem ficar atentas também a outro complicador: a fibromialgia, síndrome que provoca dores constantes no corpo por longos períodos, atingindo-as sobretudo entre os 20 e 50 anos. Segundo o neurocirurgião Elias, se já existe um quadro problemático nas costas, a síndrome intensifica as dores.


3. Não espere piorar
Ninguém deve imaginar que tem de suportar a dor nas costas para sempre, enganando-se nos momentos de crise com relaxante muscular. É a negligência que leva à invalidez. “Não é qualquer dorzinha que deixa o indivíduo incapaz. No entanto, uma dor leve que não seja diagnosticada corretamente pode mascarar uma doença grave, como tumores, fraturas, inflamações, infecções e distúrbios neurológicos”, afirma o reumatologista Natour. Já no caso das temidas hérnias de disco, é diferente. “Há quem conviva com elas sem sentir nada a vida toda.” E, contrariando o que muita gente pensa, nem sempre exigem cirurgia.
É importante diferenciar a dor crônica da aguda. É considerada crônica a que ultrapassa três semanas, mesmo que de leve intensidade. A aguda não passa desse tempo, mas causa grande sofrimento, nunca é leve e exige atendimento imediato. Nos dois casos, é necessário avaliação médica para saber se bastam repouso e remédios ou se é indicada uma investigação mais detalhada.
Quando há necessidade de cirurgia, as intervenções são pouco invasivas, e o tempo de recuperação, que era de meses, caiu para cerca de três semanas. Não há, porém, grandes avanços na área atualmente. O que predomina em relação aos tratamentos são recursos já consagrados, como fisioterapia, reeducação postural global (RPG), acupuntura, hidroterapia e medicamentos específicos.
Para reverter a conclusão dos estudos australianos, que refletem uma tendência mundial, a prevenção é o caminho. Mudar o comportamento das pessoas é urgente. Não se trata apenas de saúde. É também uma questão social, que afeta relações pessoais e de trabalho.
Cuidados como manter a espinha ereta, não sobrecarregar as articulações, escolher bem colchões e travesseiros, alternar o uso de salto alto com solados baixos e dividir o peso que vai na bolsa em outra sacola são medidas simples que fazem enorme diferença. Acrescente à lista abandonar o cigarro.
Os especialistas recomendam atividades como natação, hidroginástica, ioga, pilates e musculação, que conjugam exercícios de força e de alongamento. Assim, os músculos abdominais e das costas ficam firmes e sustentam a postura. Esportes de impacto só podem ser praticados com aval médico.
A invalidez é o quadro extremo, claro, mas a dor constante e moderada já faz estragos significativos: afeta sono, humor, disposição e ganha dimensões emocionais e físicas que atrapalham as relações. Nem mesmo a depressão está descartada como consequência. Preservar a saúde das costas, portanto, entra no rol de transformações que priorizam a qualidade de vida.


Salva pelos exercícios

“A primeira vez que minhas costas travaram foi aos 25 anos. Cursava a faculdade de arquitetura e passava horas debruçada na prancheta, toda torta. Um dia, acordei sem conseguir me mexer. No hospital, o médico descobriu um pedaço de vértebra rachadinho. Nada perigoso; dava para conviver. Mas, com a má postura, a situação se agravou. Volta e meia tinha uma crise. Cheguei a passar três dias de cama. Mal conseguia ficar de pé. Chorava de dor e de raiva, me sentia inutilizada, dependente dos outros. Fiquei abalada. Eu me cuidava só com remédios. Com a idade, tive que fortalecer a musculatura com ioga e musculação. As crises diminuíram muito. Hoje em dia é raro eu usar medicamentos. Só preciso se mudo a rotina. Por exemplo: nas festas de fim de ano, travei de novo. Foi um período em que parei a atividade física e dormi na casa da minha sogra, num colchão diferente. A rotina de exercícios é fundamental para evitar as dores.”
Mirian Nomura, 53 anos, arquiteta

Quando a cirurgia é a solução
“Sempre pratiquei muito esporte: corrida, boxe, ciclismo. Quando senti um incômodo na região lombar, em novembro de 2012, não levei a sério. Achei que era uma dor muscular causada pela intensidade dos exercícios e a agitação diária. Viajo muito a trabalho, passo horas em avião, noites e noites em camas de hotel. Mas um dia fui simplesmente caminhar e não consegui. Os exames mostraram uma hérnia pequena, sem indicação de cirurgia.
Tomei medicamentos, me submeti a fisioterapia e acupuntura. Nada resolvia e a dor aumentava. Cancelei todas as viagens a trabalho. Não andava mais que 15 minutos. O médico não entendia. O exame de ressonância não indicava nada anormal. Insisti que desejava ser operada.
A princípio, ele não queria. Mas, diante das minhas dores fortes e nenhuma possibilidade de solução, ele cedeu. Enfrentei a cirurgia há três semanas. A surpresa foi encontrarem uma hérnia maior, comprimida no nervo, que não aparecia nos exames. A dor já diminuiu e em quatro meses espero voltar a correr.”
Alejandra Velasco, 38 anos, diretora da Hermes para América Latina

O papel da terapia
“Há quatro anos parei de dar aulas de educação física por causa de um problema na coluna. Apareceu uma lombalgia, sem explicação, meses após o nascimento da minha filha. Eu travava, ficava de cama. Sentia uma dor que me impedia de respirar. Os médicos descobriram uma pequena hérnia e me submeti a tudo: RPG, acupuntura, remédios. Nada melhora de fato; apenas alivia.
Não fico um minuto sem dor. Com o tempo, fui também diagnosticada com fibromialgia, que já é um estado constante de dor pelo corpo e que, na região lombar, piora ainda mais. Voltei a enfrentar uma sequência de crises no ano passado. Duas vezes por semana, parava no hospital. Foi o auge da crise no meu casamento, que acabou há cinco meses. Após a separação, as dores diminuíram um pouco.
Não sou, porém, uma pessoa que leva vida normal, que realiza movimentos como qualquer um. A terapia me ajudou bastante, assim como os antidepressivos e o artesanato com biscuit, que agora também é meu ganha-pão. Devido a uma crise financeira, perdi meu plano de saúde e não consigo fazer os exames que o reumatologista pediu. Não sei se vou ter que operar.”
Cibele Klarkin, 35 anos, educadora física e artesã.

Fonte: Fisioterapia.com


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